sexta-feira, setembro 29, 2006

Chave de Palavra

O começo é difícil em qualquer ciência, testemunha Marx logo no ínicio d’ O Capital. Às vezes, iniciar um texto também é. Quero escrever sobre a montagem, que assisti há algumas semanas, de uma peça do Brecht, O Círculo de Giz Caucasiano, pela Companhia do Latão, que estava em cartaz aqui no CCBB do Rio.

Vou começar por uma pequena experiência que fiz, não sem efeitos, em relação ao texto, que não conhecia. Durante a semana, comecei a lê-lo, e me vi diante de uma peça bastante difícil, com muitas cenas e personagens, ao largo das seis unidades que a compõem. Fiquei imaginando: como é que os caras vão fazer isso tudo? Como vão encenar? Eu também não conhecia a companhia, então fiquei fantasiando sobre todas as inúmeras mudanças de ambiente que o texto trazia: um prólogo numa aldeia da União Soviética, um golpe de estado num palácio, uma fuga por montanhas geladas, um hotel, uma ponte, uma casa nas montanhas, o gelo derretendo, um rio, um tribunal... E os cenários? E o figurino?

Não dá pra pensar numa montagem dessa peça que seja uma superprodução hollywoodiana. No entanto, não dá pra garantir que, qualquer dia desses, algum desses diretores ultrabadalados não vá resolver montar um Círculo de Giz nos moldes de um Titanic. Nenhuma obra é absolutamente inapropriável, mas, nesse caso, é muito improvável. Brecht e Broadway não casam. Um dos dois engole o outro, é oito ou oitenta.

Mas O Círculo de Giz não deixa de ser, num outro sentido, uma superprodução. Além disso, foi exibido em um disputadíssimo palco, o do CCBB, onde o espaço não é dos maiores. A complexidade da peça leva forçosamente a um puta trabalho na concepção da montagem, uma grande elaboração de seus aspectos formais. E Brecht, com o perdão do trocadilho, não dá brecha: o próprio texto nos indica que tudo deverá ser feito com não muitos atores, já que o Círculo de Giz é uma peça encenada pelos aldeões de um dos colcoses do prólogo, que certamente não poderiam formar um elenco com toda sua comunidade e precisariam se revezar em vários personagens.

Daí o que poderia parecer contraditório: os textos de Brecht, em geral, exigem superproduções, ainda mais quando conjugados com música. E aponto aqui como era complicado, lendo o texto, imaginar como a música entrava na montagem. As indicações de canções são muitas, sem sugestão escrita de melodia. Fiquei pensando no grande desafio que seria compor músicas, arranjos com montagens.

Eu ia começar este texto com a seguinte frase, mas parece que ela entra melhor agora: montagens de Brecht vêm sendo raras nos últimos anos. E não sem determinações históricas: O Círculo de Giz nos apresenta uma abrangência temática exuberante - material farto, trabalhado com suor. Não há ponto sem nó, o cara não gastou tinta à toa. É preciso muito peito e muita raça para levar a peça adiante, sem deixar cair a peteca. E como é impressionante exigência que o texto faz do trabalho dos atores, na dinâmica da transmutação, muitas vezes repentina, em personagens amplamente diferentes, e por pouco tempo.

Como eu dizia no início, li grande parte da peça durante aquela semana, na expectativa de chegar ao teatro com certo conhecimento do texto. Aconteceu que não consegui, justamente, ler o que seria o desfecho do espetáculo, de modo que sabia a história toda, menos o final. Parece que isso contribuiu demais para que eu me emocionasse muito enquanto o assistia. É muito bonito o amor da personagem por aquele menino e a forma como ela o demonstra, amor que nasceu de maneira tão tórrida, a partir de um momento extremamente agudo de miséria.

E é claro que o texto escrito não estava todo lá. Tudo bem, mas senti a falta do deboche que Brecht faz dos médicos, em dois momentos diferentes, de forma rápida e sutil. Foram suprimidos, no que resulta, certamente, alguma perda. Talvez não por acaso, uma hora meus olhos bateram no encarte, durante o intervalo, onde estava transcrita uma entrevista com o próprio Brecht, comentando sobre supressões na montagem que dirigira em Berlim, no ano de 1954. Disse ele: “Quando se corta algo, tem-se que entregar algumas coisas. Ali se tem uma certa perda, é verdade. Não se pode comer o bolo e guardá-lo. É claro que se tem que cortar algo. Em todas as coisas não se podem estabelecer princípios rígidos. Não é verdade que as pessoas vêm ao teatro por causa do teatro, na realidade é o contrário. Temos que pensar sempre que as pessoas tiveram um pesado dia de trabalho. Só quando tivermos uma jornada de trabalho mais curta – por exemplo, 6 ou 4 horas – estaremos em condições de ver peças mais longas. As peças não respeitam muito isto e exigem muito de pessoas que estão cansadas”. Brecht falou, mas continuei achando que aqueles diálogos fizeram muita falta. De qualquer maneira, quanto pano pra manga há nessa declaração, a respeito da arte e de sua publicação (preciso voltar a esse ponto crucial mais tarde).

Em muitos momentos, fiquei pensando na entrevista que vi, ainda antes de assistir À montagem, do diretor Sérgio de Carvalho, concedida a Globo News. A repórter não conseguiu deixar de perguntar: “Você não acha que a peça de Brecht é anacrônica?”. Ah, como dá vontade de sair xingando essa mulher, mas sei que não é por aí. Ô mulher babaca, coitada, robotizada pelo discurso dos patrões, na pregação do ‘fim da história’. Assim como a grande maioria dos que costumam escrever e falar sobre teatro e aproveitam para taxar Brecht de desatualizado, como se esse negócio de luta de classes fosse um papo que remetesse especificamente a alguma ‘moda’ do século passado. E como se fosse impossível que o povo pudesse ser representado em obras de arte, que assim nada teriam a ver com as condições sociais e os modos econômicos de produção.

Encerrada a montagem, os atores vieram se despedir do público e estavam também largamente emocionados, alguns às lágrimas. A troca que houve entre eles e a platéia foi baseada numa fortíssima transferência. Não por acaso, o ‘palco’ era muitíssimo próximo das cadeiras, de forma que as expressões eram muito intensamente sentidas, por ambos os lados. Obviamente, não sei se foi assim nos outros dias, os públicos mudam, os próprios atores também têm todo o direito de não fazer apresentações excepcionais em todas as vezes. E foi de uma delicadeza tamanha quando os atores anunciaram que estariam jantando em um determinado restaurante – o desejo de ouvir aqueles que acabaram de assisti-los.

Quando a personagem Grusche acaba de sair, em fuga, de uma estalagem, no meio da peça, um criado de lá lhe dá o seguinte conselho: “Quando chegares na encruzilhada, vire à esquerda”. No texto que li, era à direita que ele sugeria. A Companhia modificou uma palavra aparentemente sem importância, de acordo com o próprio caminho que escolheu, nesta atual encruzilhada da história. Passo a bola para Pablo Neruda:

“Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
– há fábricas de dias que virão –
existem artesão da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.”

terça-feira, setembro 19, 2006

Triste Fim de Cristovam Buarque

Que Cristovam Buarque chove no molhado, não é novidade para ninguém. Seu mantra (como bem definiu José Dirceu) é dos mais monótonos e repetitivos, apesar de verdadeiro: que a educação é a base de tudo. Muito bonito ficar bradando isso, o feio é fugir da raia na hora de pôr a mão na massa. E o rojão estoura quase todo na mão do PT (e do PC do B, em menor escala).

Mas parece que Cristovam não se cansa de cometer equívocos. Na sexta-feira 08 de setembro, saiu uma declaração sua no JB, página A2, na qual ele assim dizia: “É um risco para a democracia se Lula for eleito no primeiro turno”.

Pára tudo. Está muito claro que já não podemos esperar quase nenhuma sensibilidade política de Cristovam e seu partido, assim como de Heloísa Enéas e seus rebentos. Mas já tá ficando demais. Um risco para a democracia? Quer dizer o quê? Que se o povo reeleger o presidente Lula com mais de sessenta milhões de votos, isso é um risco para a democracia? Se ele tivesse dito que o povo vai votar mal, até entenderíamos, embora eu, particularmente, não concordaria. O que eu não esperava é Cristóvam também aderisse a um discurso golpista, pois o princípio mais fundamental de uma democracia representativa é a soberania do povo através do voto. É uma declaração golpista, repito, pois não o julgo uma pessoa burra.

Cristovam e seu partido, assim como Heloísa e seus pares, e também o PPS do enlouquecido Roberto Freira, não merecem ter seus passados de luta pela democracia e pelo socialismo no país condenados. Isso está fora de questão, a contribuição que eles proporcionaram ao nosso povo é digna de aplausos. Mas seus presentes e, principalmente, seus futuros políticos, ao meu ver, estão nitidamente sendo jogados fora (alguns sem volta). E isso é lamentável. Seria muito belo se estivessem ocupados em realizar uma oposição mais à esquerda, que exercesse pressão sem cair no denuncismo farisaico e no hegemônico discurso moralizante, e que ajudassem na organização de um debate sobre projetos de governo, discutindo suas viabilidades políticas. O único debate que promovem é um debater-se em tristes águas, como se estivessem se afogando, felizes da vida por morrerem sozinhos, incapazes de pedir ajuda aos que passam por perto e estendem a mão.

Não posso deixar de falar de Jéferson Peres, vice de Cristovam, outro ex-companheiro com interessante trajetória de luta. Ex-companheiro, ressalto. Só anda falando besteira, tratando o povo como se fosse uma massa ignorante que não está preocupada nem um pouco com política (ao contrário do que, até mesmo, certas pesquisas eleitorais apontam). Pelo menos, ainda que muito tardiamente, anunciou aposentadoria da carreira política após o pleito. Acho que é isso mesmo: cansou, já não trabalha mais direito, que pendure as chuteiras e vá criar galinhas, o que pode ser um ofício muito bacana, nada contra. Tem horas que a caduquice e o cansaço acabam vencendo. O problema é quando não se percebe isso.

domingo, setembro 10, 2006

Brincando com números

Dentre as mais eficientes estratégias para desinformar seu público, uma das mais utilizadas por jornais, revistas e portais de internet ainda é (acreditem!) a manipulação descarada das manchetes. Para eles, a primeira impressão é a que fica. Será?

Todos os dias, caminhando para o trabalho, passo por uma grande banca de jornal, dessas que hoje proliferam-se pela Zona Sul do Rio de Janeiro. Penduradas em espaço reservado, numa das faces da banca que está voltada para a calçada, ficam as primeiras páginas dos jornais do dia, devidamente plastificadas para que o jornal não possa ser folheado por qualquer um. Ali o povo lê, da calçada, as manchetes - as manchetes. No horário do almoço sempre há multidões disputando um lugar na platéia e, ao final do dia, poucos são os que efetivamente compram e lêem os jornais ali expostos.

O que não deixa de ser uma boa notícia, digamos assim.

Os grandes portais de internet (uol, ig, terra, globo.com, etc.) funcionam mais ou menos dessa mesma maneira. Milhares (ou milhões, quem sabe?) de pessoas acessam esses sites para dar uma "olhada rápida" nas notícias do dia, no que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo. Raramente estão dispostos a perder muito tempo lendo as matérias completas, e estão menos dispostos ainda a buscar outras fontes de informação, outras versões, outras opiniões.

Eu mesmo faço isso inúmeras vezes, confesso. Numa dessas ocasiões, me deparei com uma manchete que dizia mais ou menos assim:

Eleitores relacionam imagem de Lula à defesa dos pobres e à corrupção.

Senti o cheirinho da manipulação e fui conferir. A notícia evocava uma pesquisa do instituto datafolha que chegou, basicamente, às seguintes conclusões:

  1. 48% dos eleitores ligam Lula à defesa dos interesses dos pobres.
  2. 44% dos eleitores não ligal nenhum dos candidatos à presidência à corrupção.
  3. 25% dos eleitores ligam Lula à corrupção.

Do que se pode depreender, sem muito esforço intelectual:

  1. Aproximadamente metade dos eleitores ligam Lula à defesa dos interesses dos pobres.
  2. Aproximadamente metade dos eleitores não estão interessados na paranóia moralista da burguesia.
  3. 75% dos eleitores, ou 3/4 deles, não ligam Lula à corrupção.

Então, qual confusão a manchete quis deliberadamente criar?

A de que é o mesmo grupo de pessoas (os "eleitores") que considera Lula o "pai dos pobres" e "o corrupto", para insistir na concepção golpista de que o povo, apesar de achar que o presidente é um ladrão safado, vota nele porque é "comprado" pelo bolsa-família.

O problema é que os números da pesquisa dizem justamente o contrário. Basta que se faça uma relação simples, mesmo que essa relação não possa ser encarada de forma absolutamente linear. Os índices dos que ligam o presidente aos pobres e à corrupção são muito próximos aos índices de intenção de voto em Lula e em seu principal adversário-xuxu, em pesquisa realizada pelo mesmo instituto, na mesma semana (51% a 27%) - não parece evidente que não é o mesmo público que avalia a imagem de Lula assim ou assado?

Poderíamos enumerar muitas outras manchetes para divulgar os números da pesquisa. Esse é um exercício que não me interessa fazer. Basta dizer que o índice daqueles que ligam Lula à corrupção é menor do que o índice dos eleitores que votam em outros candidatos. Vejamos:

  • Em todas as pesquisas, Alckmin tem mais ou menos 25%
  • Em todas as pesquisas, Heloísa Malvadeza tem mais ou menos 10%
  • Em todas as pesquisas, forçando a barra, os outros candidatos tem mais ou menos 5%
  • Em todas as pesquisas, Lula tem mais ou menos 50%
  • Em todas as pesquisas, os adversários de Lula, somados, tem mais ou menos 40%

Isso quer dizer que 40% do eleitorado não vota em Lula, mas apenas 25% do eleitorado o liga à corrupção, do que se depreende que, apesar de toda a campanha anti-Lula da mídia durante os últimos 15 meses (!), sua imagem, ao contrário do que diz a manchete em questão, não está ligada à corrupção. Este é um dado positivo para o presidente, não negativo.

Tal fato fica ainda mais evidente quando acrescentamos à análise dados que não aparecem em estatísticas. Por exemplo? O perfil dos eleitores de Alckmin e HH. Podemos afirmar, sem maior risco, que esses eleitores são os mesmos que consideram Lula um "bandidão". Trata-se da parcela mais influenciada pela grande mídia, a classe média pequeno-burguesa, preconceituosa, mal informada e incapaz de compreender o mundo para além de seus próprios umbigos - não é à toa que Geraldo (vocês sabem quem é Geraldo?) e Heloísa disputam os mesmos votos, o mesmo eleitorado. É evidente, cristalino, que grande parte desses eleitores ligam Lula à corrupção. Qual a novidade da pesquisa?

Fernando Henrique Cardoso, o "lacerdinha", está sendo bem-sucedido em sua convocação para que botem "fogo no palheiro". É uma pena (para ele), que esse sucesso só se dê entre os seus companheiros da grande imprensa, amigos de todas as horas. Afinal, não é por qualquer um que se esconde uma crise cambial para que o amigão seja reeleito, não é mesmo?

A democratização e a regulamentação dos meios de comunicação são tarefas urgentes. E não serão tarefas fáceis.

Mais informações sobre a pesquisa em www.datafolha.com.br.

sábado, setembro 09, 2006

Vozes de Copacabana

Começo escrevendo sobre o concerto do Projeto Aquarius, na praia de Copacabana, no fim-de-semana passado, o último de agosto de 2006. Para mim, foi um convite irresistível: uma sinfonia de Wagner, aberta a todos, com mais de trezentos músicos, um coral gigantesco, num espaço que é geralmente destinado a concertos de música feita por gente famosa, com qualidade variável. Será que iria muita gente? Será que o povão iria comparecer em massa? Será que o público iria gostar?

Peguei minha bicicleta e fui. Não ia agüentar ficar em casa, na curiosidade, sem ter sido testemunha corpórea daquele acontecimento. Felizmente, fez uma noite linda. E, já no caminho, percebi que o fluxo era grande naquela direção. Ficaria lotado, passei a ter certeza. Assim como também sabia que, com tanta gente aglomerada, ia ser horrível para ouvir a sinfonia (qual delas?)– mas isso não era tudo, para não dizer mais.

A minha primeira grande questão era sobre a composição da platéia, naquele espaço público tão globalizado, onde mais de um milhão de pessoas se amontoam na festa de fim de ano: populacho, classe média e grã-finagem; indígenas e caras-pálidas. A ‘minoria branca’ – expressão que se consagrou no lapso de sensatez de um reacionário pefelista –, no caso da sinfonia, era maioria. Sim, havia uma minoria negra. Mas não criemos, a partir disso, uma falsa questão: Copacabana é um bairro de classe média alta. E cosmopolita, epicentro de turistas. Há algumas favelas bem próximas, mas esperaríamos que o populacho descesse o morro, em peso, para ver uma ópera? É possível que alguns o tenham, em saudável curiosidade. Assim como é certo que, se o evento fosse em Santa Cruz, a platéia seria outra.

Gostaram ou não do que viram? Não dá pra dizer, mas é certo que o público, na sua maioria, estava muito entusiasmado, e não queria ir embora, queria mais música, mais espetáculo. Sim, música com espetáculo: iluminação, palco, propaganda – que podem ser dispensáveis para a música, num sentido mais amplo? Até podem, mas nem sempre, e nunca num concerto com essas proporções.

Universalizar o acesso do povo à diversidade das manifestações artísticas do país é um trabalho fundamental em qualquer disposição democrática. Karabtchevsky, com o capital político que seu nome angariou, está contribuindo muito nessa direção: para que a coletividade possa escolher o que gosta, a partir da própria experiência, suprimindo-se a ignorância que é gerada a partir de um apartheid, da segregação social que se manifesta em diversos níveis, nas complexidades de cada grupo social. A África também é aqui, e lá não há somente negros.

Começa o espetáculo e as pessoas se ajuntam, ficam ainda mais próximas. Uma estória que pode ter acontecido simultaneamente, com diferentes nuances, em vários pontos da platéia: duas amigas, atrás de mim, não paravam de falar, aos altos brados, o que me deu muita raiva. O famoso ruído para que se calassem não demorou a aparecer, inclusive da minha boca, sinalizando o alto nível de adesão do público. A resposta delas foi a pior possível: “Quer silêncio, vai ao teatro!”. O engraçado era que elas não aparentavam ter a experiência de ir ao teatro, ou de assistir a concertos de música em silêncio: deu para ouvir que elas só comentavam sobre a beleza do palco e das luzes, mais nada. A vontade era de mandar elas irem para casa ver novela da Globo, não pela manifestação de ignorância, mas pelo culto à mesma, na recusa em calar-se diante da maioria que estava muito interessada em assistir – ver e ouvir – a apresentação da orquestra. Desnecessário dizer que eram duas barangas?

Enquanto vozes melodiosas se empunhavam através de poderosos diafragmas no palco, Coca-Cola, água mineral e Skol, faço questão de nomear os produtos, eram anunciados também por enérgicos gritos, ritmados pelos ambulantes que honestamente aproveitavam para ganhar a vida. Mas, em relação a esses, não dava vontade de reclamar para que se calassem. Alguma coisa dentro de mim, e também das pessoas que estavam em volta, dava legitimidade para que aqueles trabalhadores gritassem sem que nossos ouvidos se arranhassem.

Termino com uma associação. Nos últimos dias, li uma curta e singela redação escrita pela minha pequena prima, que acabou de completar nove anos. A história era a seguinte: tinha jogo do Brasil no Maracanã e dois personagens iam ao estádio: um, para assistir à partida; o outro, para vender alguma coisa no sinal de trânsito e ajudar nas despesas da casa. O Brasil ganhou e, no final daquelas sensíveis linhas, ambos estavam felizes: um, por causa da vitória, e o outro, porque ganhou “muito dinheiro”. É realmente muito emocionante notar na pequena um desejo de que o trabalhador volte para casa tão satisfeito quanto aquele que foi ali para se divertir, ainda mais quando é um trabalho muitas vezes considerado como ilegítimo, e realizado em condições precárias, nem um pouco confortáveis. O nome da composição dela era “O Domingo Legal”.

sexta-feira, setembro 01, 2006

O MST e o governo Lula

A postura do MST tem sido muito importante nesse governo: apoio com críticas construtivas, sem perder a sensibilidade na análise das forças políticas em conflito. Uma adesão que pressiona, mas sem histeria. Uma certa desconfiança saudável em relação aos percalços da 'democracia' burguesa. A percepção de que a direita está pensando na eleições de 2010. O chamamento a um verdadeiro debate, sem ressentimentos pedantes. Por fim, dá o veredicto no enigma psol, que é, a cada dia que passa, cada vez menos um enigma.

--

Stédile: povo fará luta de classes num 2º mandato
Reuters

18:58 28/08


BRASÍLIA (Reuters) - O líder do MST, João Pedro Stédile, prevê um quadro político turbulento em um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele avalia que, se Lula mantiver o modelo neoliberal dos três últimos anos de governo, perderá seu principal ativo político --o povo-- e ficará refém de um Congresso hostil.

Fundador de um dos mais importantes movimentos sociais do país -- o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra--, Stédile explica que a onda de protestos não buscará a desestabilização do governo e que as mudanças só acontecerão sob a pressão das ruas.

"Teremos um caldeirão social prestes a eclodir..., em algum momento, em luta social no segundo mandato. Nós queremos a retomada das lutas sociais e da mobilização de massa. Nós, do MST, participamos desse caldeirão para que o governo abandone as medidas neoliberais que adotou e adote medidas que reconduzam a um outro projeto de desenvolvimento nacional", disse Stédile em entrevista exclusiva à Reuters, no sábado.

Na avaliação de Stédile, distante de sua base popular, o presidente ficaria rendido às "forças de direita eleitas em maioria no Congresso e nos Estados", que manteriam a corda do impeachment no pescoço do presidente.

"Eles vão segurar o processo de impeachment na gaveta do Congresso. Cada vez que Lula ameaçar com algo mais contundente, eles puxam a gaveta e mostram o impeachment, que é um processo puramente político, que não precisa de provas materiais. Será uma ameaça permanente", disse.

"Isso seria uma barbárie. Por isso, faremos a mobilização popular, pois queremos que Lula, pressionado, se reaproxime de nós", explicou.

A receita de Stédile para libertar Lula da clausura política prevista pelo líder do MST é simples: ouvir o clamor das ruas. O presidente, segundo ele, precisa mudar a estrutura produtiva do país e fazer uma reforma agrária massiva.

"Lula tem sensibilidade social e é fruto desse meio. Com as pressões, ele mudaria ou, pelo menos, se manteria aliado dos movimentos sociais", apostou Stédile.

AOS BANCOS, TUDO. AOS AMIGOS, LONA PRETA

Em relação à reforma agrária, o MST guarda o ressentimento de uma mudança prometida, mas que não veio. Lula não teve "coragem" de fazer a distribuição de terras aos pobres, e acentuou a concentração de renda nas mãos dos ricos, reclamou o líder do movimento.

"O governo nem conseguiu atingir as metas de assentar 400 mil famílias em quatro anos. Eles dizem que assentaram 280 mil famílias até agora. Não é verdadeiro. Eles assentaram, no máximo, 150 mil famílias, metade delas do MST", contou.

"No cálculo dos movimentos, deve ter hoje, em todo país, umas 140 mil famílias acampadas, a maioria delas acampadas desde o início do governo, esperando há três anos debaixo da lona preta, porque eles foram acampar, inclusive, pela motivação de que, com Lula, a reforma saísse", lamentou.

Ele reconheceu avanços, como o aumento de recursos destinados à agricultura familiar, mas se queixou da prioridade dada aos bancos e às empresas do agronegócio.

Quanto aos programas sociais de Lula, como o Bolsa Família, motivo de orgulho do presidente, o líder do MST é crítico. Diz que eles não passam de uma "ilusão", de medidas paliativas para compensação social.

A reforma agrária, segundo ele, teria sido mais eficaz na promoção de mudanças estruturais. "A reforma agrária faz parte do capitalismo, ninguém espera chegar ao socialismo com ela", disse.

HELOÍSA, "O GRILO FALANTE"; ALCKMIN, "O LARANJA"

Stédile pinta um quadro turbulento para os próximos quatro anos e garante que a cruzada popular por mudanças já começou. Há alguns meses, ele chegou a fazer uma avaliação eleitoral polêmica, ao menos para alguém que sempre foi aliado do PT. Queria um Lula vencedor, mas somente no segundo turno. Agora, já não sustenta essa convicção.

"Hoje, a 30 dias da eleição, eu já tenho dúvida. Eu torcia por um segundo turno para ter um contraditório. Como não tem debate de projetos, temos uma campanha medíocre. Alguns têm dito que, se vai para segundo turno, Lula ficaria ainda mais refém das forças conservadoras", afirmou.

A torcida do líder do MST por Lula é pragmática, não guarda mais a esperança de 2002. A disputa eleitoral não o entusiasma, ao contrário, o desestimula. "Geraldo Alckmin (candidato do PSDB à Presidência) não tem nenhum carisma eleitoral para derrotar Lula. Então, a burguesia o jogou como laranja nestas eleições, como kamikaze, boi de piranha, porque se eles quisessem de fato disputar eleitoralmente com Lula, teriam botado José Serra, que também não teria chance, mas chegaria mais perto", avaliou.

A candidata do PSOL, Heloísa Helena, dona de um discurso com vários pontos de contato com a visão de mundo de Stédile, é vista por ele como uma representante sem base e sem projeto --"um grilo falante, que só sabe denunciar, denunciar, mas que não espelha a classe trabalhadora do Brasil."

"Eu tinha expectativa que outras forças sociais, como o PMDB nacionalista, tivessem colocado candidato, que fosse o Itamar Franco, porque isso provocaria um debate em torno de projetos. Mas o PMDB não conseguiu botar candidato, se esfacelou", lamentou.