sexta-feira, setembro 01, 2006

O MST e o governo Lula

A postura do MST tem sido muito importante nesse governo: apoio com críticas construtivas, sem perder a sensibilidade na análise das forças políticas em conflito. Uma adesão que pressiona, mas sem histeria. Uma certa desconfiança saudável em relação aos percalços da 'democracia' burguesa. A percepção de que a direita está pensando na eleições de 2010. O chamamento a um verdadeiro debate, sem ressentimentos pedantes. Por fim, dá o veredicto no enigma psol, que é, a cada dia que passa, cada vez menos um enigma.

--

Stédile: povo fará luta de classes num 2º mandato
Reuters

18:58 28/08


BRASÍLIA (Reuters) - O líder do MST, João Pedro Stédile, prevê um quadro político turbulento em um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele avalia que, se Lula mantiver o modelo neoliberal dos três últimos anos de governo, perderá seu principal ativo político --o povo-- e ficará refém de um Congresso hostil.

Fundador de um dos mais importantes movimentos sociais do país -- o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra--, Stédile explica que a onda de protestos não buscará a desestabilização do governo e que as mudanças só acontecerão sob a pressão das ruas.

"Teremos um caldeirão social prestes a eclodir..., em algum momento, em luta social no segundo mandato. Nós queremos a retomada das lutas sociais e da mobilização de massa. Nós, do MST, participamos desse caldeirão para que o governo abandone as medidas neoliberais que adotou e adote medidas que reconduzam a um outro projeto de desenvolvimento nacional", disse Stédile em entrevista exclusiva à Reuters, no sábado.

Na avaliação de Stédile, distante de sua base popular, o presidente ficaria rendido às "forças de direita eleitas em maioria no Congresso e nos Estados", que manteriam a corda do impeachment no pescoço do presidente.

"Eles vão segurar o processo de impeachment na gaveta do Congresso. Cada vez que Lula ameaçar com algo mais contundente, eles puxam a gaveta e mostram o impeachment, que é um processo puramente político, que não precisa de provas materiais. Será uma ameaça permanente", disse.

"Isso seria uma barbárie. Por isso, faremos a mobilização popular, pois queremos que Lula, pressionado, se reaproxime de nós", explicou.

A receita de Stédile para libertar Lula da clausura política prevista pelo líder do MST é simples: ouvir o clamor das ruas. O presidente, segundo ele, precisa mudar a estrutura produtiva do país e fazer uma reforma agrária massiva.

"Lula tem sensibilidade social e é fruto desse meio. Com as pressões, ele mudaria ou, pelo menos, se manteria aliado dos movimentos sociais", apostou Stédile.

AOS BANCOS, TUDO. AOS AMIGOS, LONA PRETA

Em relação à reforma agrária, o MST guarda o ressentimento de uma mudança prometida, mas que não veio. Lula não teve "coragem" de fazer a distribuição de terras aos pobres, e acentuou a concentração de renda nas mãos dos ricos, reclamou o líder do movimento.

"O governo nem conseguiu atingir as metas de assentar 400 mil famílias em quatro anos. Eles dizem que assentaram 280 mil famílias até agora. Não é verdadeiro. Eles assentaram, no máximo, 150 mil famílias, metade delas do MST", contou.

"No cálculo dos movimentos, deve ter hoje, em todo país, umas 140 mil famílias acampadas, a maioria delas acampadas desde o início do governo, esperando há três anos debaixo da lona preta, porque eles foram acampar, inclusive, pela motivação de que, com Lula, a reforma saísse", lamentou.

Ele reconheceu avanços, como o aumento de recursos destinados à agricultura familiar, mas se queixou da prioridade dada aos bancos e às empresas do agronegócio.

Quanto aos programas sociais de Lula, como o Bolsa Família, motivo de orgulho do presidente, o líder do MST é crítico. Diz que eles não passam de uma "ilusão", de medidas paliativas para compensação social.

A reforma agrária, segundo ele, teria sido mais eficaz na promoção de mudanças estruturais. "A reforma agrária faz parte do capitalismo, ninguém espera chegar ao socialismo com ela", disse.

HELOÍSA, "O GRILO FALANTE"; ALCKMIN, "O LARANJA"

Stédile pinta um quadro turbulento para os próximos quatro anos e garante que a cruzada popular por mudanças já começou. Há alguns meses, ele chegou a fazer uma avaliação eleitoral polêmica, ao menos para alguém que sempre foi aliado do PT. Queria um Lula vencedor, mas somente no segundo turno. Agora, já não sustenta essa convicção.

"Hoje, a 30 dias da eleição, eu já tenho dúvida. Eu torcia por um segundo turno para ter um contraditório. Como não tem debate de projetos, temos uma campanha medíocre. Alguns têm dito que, se vai para segundo turno, Lula ficaria ainda mais refém das forças conservadoras", afirmou.

A torcida do líder do MST por Lula é pragmática, não guarda mais a esperança de 2002. A disputa eleitoral não o entusiasma, ao contrário, o desestimula. "Geraldo Alckmin (candidato do PSDB à Presidência) não tem nenhum carisma eleitoral para derrotar Lula. Então, a burguesia o jogou como laranja nestas eleições, como kamikaze, boi de piranha, porque se eles quisessem de fato disputar eleitoralmente com Lula, teriam botado José Serra, que também não teria chance, mas chegaria mais perto", avaliou.

A candidata do PSOL, Heloísa Helena, dona de um discurso com vários pontos de contato com a visão de mundo de Stédile, é vista por ele como uma representante sem base e sem projeto --"um grilo falante, que só sabe denunciar, denunciar, mas que não espelha a classe trabalhadora do Brasil."

"Eu tinha expectativa que outras forças sociais, como o PMDB nacionalista, tivessem colocado candidato, que fosse o Itamar Franco, porque isso provocaria um debate em torno de projetos. Mas o PMDB não conseguiu botar candidato, se esfacelou", lamentou.